Nosso peso não é sempre nossa culpa, então por que nos fazem pensar que é?

Por que continuamos a escutar “coma menos e faça mais exercícios” da mídia, nossos médicos, e até mesmo de amigos e família, quando comer demais nem sempre é o vilão?

Dê uma boa olhada na foto acima.

Agora, deixa eu te fazer uma pergunta…
Por que você acha que a mulher da foto está com sobrepeso?

Imagino que você vai dizer algo como “ela come demais e é sedentária.” Ou, pelo menos, isso é o que a maior parte da população diria.

Mas e se essa não for a resposta? E se alguma outra coisa está causando o ganho de peso dela, e ela não faz nem ideia?

Foi isso o que aconteceu comigo.

Ano passado, descobri que eu tenho lipedema, uma doença do tecido conjuntivo na qual as células de gordura crescem desproporcionalmente nas pernas e braços, e que não responde a dietas e exercícios. É uma doença progressiva e debilitante, que também causa dor nos membros afetados.

Apesar de ser relativamente desconhecido, o lipedema é muito mais comum do que você pode pensar. Um estudo alemão estimou que a doença pode afetar 11% da população mundial feminina. Acredito que não vemos tantas pernas assim por aí porque a maioria das mulheres com lipedema aprendem a esconder as próprias pernas, usando calças, vestidos e saias longas. Você nunca imaginaria que tem algo de errado com elas, mas no fundo, no fundo, elas estão sofrendo, como eu.

Ter lipedema significa que, não importa o que eu faça, eu sempre ganharei peso. A doença não tem cura, e os tratamentos são apenas para sintomas como dor e retenção de líquidos, já que a causa ainda é desconhecida. Até mesmo a lipoaspiração não garante que a gordura doente não vá aparecer em outra parte do corpo, independente da sua dieta ou nível de atividade física.

Leia mais sobre lipedema

Antes de eu saber que tinha lipedema, passei mais de 15 anos tentando perder peso nas pernas, tentando todo tipo de exercício e dieta que você pode imaginar, mas não conseguia. Teve uma época que eu ficava 3 ou 4 horas na academia fazendo esteira, bicicleta, natação, musculação, todo tipo de aula, e passava fome comendo 100 ou 200 calorias por dia, quase anoréxica. E ainda assim não conseguia perder peso nas pernas.

Eu me sentia um fracasso total.

Todas nós já passamos por isso. Todas nós já tentamos algum tipo de exercício, dieta, ou tratamento estético, só pra tentar se encaixar nos padrões de beleza. E esses padrões não são propagados só pela mídia, mas também pelos nossos médicos, e até mesmo amigos e família.

Mas os médicos sabem que a obesidade é uma doença influenciada por muitos fatores. Além de doenças como o lipedema, outros problemas (como o hipotireoidismo, por exemplo), genética, hormônios, e medicamentos, também influenciam o ganho de peso. Até mesmo comer demais tem raízes hormonais. Não é apenas psicológico.

Apesar disso, a maioria dos médicos não faz nada pra investigar outras causas de ganho de peso. Geralmente, eles te passam a dieta que passam pra todos os outros pacientes, e te mandam embora. Tem muita gente que, aliás, odeia ir ao médico porque não quer ser pesada ou julgada.

Na verdade, quando você está com sobrepeso, todo mundo tem muito pouca empatia, incluindo médicos. Isso é conhecido como “viés do peso”.

Segundo a entidade sem fins lucrativos americana Obesity Action Coalition, que luta pelos direitos de pessoas afetadas pela obesidade, o “viés do peso” faz com que as pessoas afetadas pela obesidade sejam menos bem sucedidas em suas carreiras, estudos, e geralmente são vistas pela sociedade— incluindo médicos — como fracassos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que o “viés do peso” também tem um efeito profundo no paciente, como depressão e ansiedade, o que acaba causando com que a pessoa evite atividades em que ela precise mostrar o corpo, como exercícios físicos, ou ir ao médico.

Mas nós não temos esse viés somente contra os outros. Temos também contra nós mesmos. Todos nós presumimos que a obesidade pode ser prevenida com auto controle. Acreditamos que pessoas com sobrepeso são preguiçosas e tem falta de vontade para perder peso. Portanto, se eu estou ganhando peso e não consigo perder, deve ser porque eu sou preguiçosa e estou comendo demais.

E isso não é exatamente verdade. É importante entender isso, porque assim podemos ser mais gentis com nós mesmas, e com todas as outras pessoas que tem problemas com peso.

Eu preciso dizer que passei boa parte da minha vida sendo “gordofóbica”. Quando via alguém obeso na rua, costumava dizer ou pensar: “como pode a pessoa deixar chegar nesse nível? Eu nunca deixaria isso acontecer comigo. Eu pararia de comer antes”. O que é uma coisa horrível de se dizer ou pensar. Mas é isso o que ensinam para nós, mulheres.

Depois de tantos anos pensando que meu ganho de peso era minha culpa, eu ainda estou tendo dificuldade de entender que não é. Eu tenho uma doença.

Como sociedade, nós deveríamos demandar mais educação sobre esse tipo de problema. Não deveríamos presumir nada sobre pessoas que sofrem com o próprio peso. E deveríamos nos sentir confortáveis de questionar nossos médicos se sentimos que tem outra razão porque não conseguimos perder peso. E quando já tentamos de tudo, todas as dietas, todos os exercícios, não deveríamos nos sentir culpadas. Porque, na maior parte das vezes, não é nossa culpa.

Spreading awareness about lipedema.

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